quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A entrevista

"Na minha meninice devorei os romances de Harold Robbins: nessas narrativas corajosas, em palavras duras, os protagonistas ficavam multimilionários e conduziam bólides nas 24 Horas Le Mans. Mal sabia o dr. Pais do Amaral que anos depois cumpriria as aspirações de uma criança intoxicada por má literatura.
O que me agradava sobremaneira nas aventuras dos canalhas mais ricos do mundo era a exibição das suas acrobacias eróticas: esses homens, leitor, tinham falos, e esses falos, leitor, só conheciam dois estados — ou estavam erectos ou, hélas, entumescidos. Pontualmente também os encontrávamos rijos, túrgidos, e até mesmo, se a memória não me falha, tumefactos — mas nunca, nunca por amor de deus se achavam moles, tenros, frouxos, indolentes ou descaídos.
Recordo um capítulo em particular, no qual o protagonista fodia uma groupie platinada com mamas grandes e botas à cowgirl no jacuzzi de uma penthouse com vista para o rio Hudson — se não foi isto, perdoem a liberdade poética. Pouco antes do orgasmo a mulher gritava com arrebatamento:
Ben, tu és o maior!
E ele responde, entre duas bombadinhas:
— Obrigado, Mandy.
E ela retorque, triunfante:
— Eu não sou a Mandy, sou a Sandy. Mas podes chamar-me o que quiseres, desde que continues a foder.
Ao assistir à entrevista de José Sócrates na semana passada compreendi finalmente a natureza da relação entre os portugueses e o primeiro-ministro:
ele pode dizer o que quiser, desde que continue a fodê-los."

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