sexta-feira, 23 de março de 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Fevereiro

A grande arte, Rubem Fonseca (3,5/5)

Magníficas obsessões: João Bénard da Costa, um programador de cinema, António Rodrigues (4,5)

Shakespeare, Giuseppe Tomasi di Lampedusa (5)

'Resumir a história contada em A grande arte seria empobrecê-la, pois ela vale mais pela maneira como é narrada que pelos seus incidentes. (E é isto que estabelece uma fronteira entre literatura e subliteratura: nesta, a imaginação do escritor está inteiramente dedicada à anedota, ao passo que na primeira ela está distribuída de modo equitativo, entre o narrado e a maneira de narrar).'
Vargas Llosa, no posfácio a A grande arte, resume numa frase tudo o que penso de Rubem Fonseca : as histórias valem mais pela maneira como são narradas que pelos seus incidentes. Se o manejo da linguagem é explorado até ao cansaço do leitor, fica-se sempre com a sensação - pelo menos nos três livros seus por cá editados e que li - que a meio a trama se esvazia e o escritor se perde.

Note-se ainda como, num parêntese, Vargas Llosa nos explica tranquilamente o que é a subliteratura. E, já agora, Francisco José Viegas - por muito fã que seja de Rubem - não deveria ter aceitado escrever um prefácio a uma obra que tem um posfácio de Vargas Llosa. Compará-los é penoso para o escritor português.

Os outros livros que li o mês passado são absolutamente recomendáveis. Lampedusa escreve sobre Shakespeare com uma simplicidade, sabedoria e liberdade só ao alcance dos muito, muito grandes (*), e António Rodrigues presta uma estupenda homenagem a Bénard da Costa, sem ser apologético.

(*) Apenas dois exemplos, num livro citável de ponta a ponta:

Sobre Medida por Medida (a obra de Shakespeare 'que salvaria se tivessem que perecer todas menos uma'):
'do mesmo modo que marca um dos pontos cimeiros da arte de Shakespeare, também marca indubitavelmente o ponto mais baixo da sua depressão psicológica. Ele estava pior ao escrever Medida por Medida do que quando compôs Rei Lear ou Macbeth ou Timão. Porque nestas últimas tragédias recuperou a força para se irritar e para invectivar. Em Medida por Medida está tão acabrunhado que tudo lhe parece natural. Tocou o fundo.

Guilherme, rei dos poetas, de árdua fonte serena.

É um verso de Carducci. Faz parte das suas Mil e Uma asneiras'.

Sobre Tito Andrónico:

'deve ter agradado muito ao selecto público que já referimos. Como não sou um pirata nem uma mulher de má vida, digo já que é ilegível'.