sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Este filme não existe (III)

Este filme não existe (II)

Duas cervejas e um broche

A excepção era a mesa junto da minha, onde duas jovens mulheres ora bichanavam aos ouvidos uma da outra, ora explodiam em gargalhadas.

Num gesto descuidado uma delas empurrou a cadeira contra a minha. Quando se voltou a pedir desculpa dei-me conta que era a bela e talentosa actriz que recentemente contracenou num filme com Tom Cruise. Sorriu, murmurou uma desculpa, acenei e ela voltou-se de novo para a amiga, retomando a conversa.

- Não compreendo – dizia aquela – Ele sempre teve essa fama. Já durante o primeiro casamento era assim. O que eu gostava de saber era como é que fazes para o acalmar.

A resposta saiu clara e em voz alta, acompanhada pelo riso de ambas, mas ninguém pareceu dar conta.

- Palavra? – insistiu a amiga.

- Palavra. Duas cervejas e um broche.

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Os feios e os estúpidos são neste mundo os mais ditosos. Podem à sua vontade gozar o espectáculo. Se não conhecem as delícias do triunfo, também os não amargura o travor da derrota. Vivem como todos nós devíamos viver, sossegados, indiferentes, sem inquietações. Nem causam a ruína dos outros, nem a recebem das mãos alheias.

Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray". Tradução de Januário Leite.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A entrevista

"Na minha meninice devorei os romances de Harold Robbins: nessas narrativas corajosas, em palavras duras, os protagonistas ficavam multimilionários e conduziam bólides nas 24 Horas Le Mans. Mal sabia o dr. Pais do Amaral que anos depois cumpriria as aspirações de uma criança intoxicada por má literatura.
O que me agradava sobremaneira nas aventuras dos canalhas mais ricos do mundo era a exibição das suas acrobacias eróticas: esses homens, leitor, tinham falos, e esses falos, leitor, só conheciam dois estados — ou estavam erectos ou, hélas, entumescidos. Pontualmente também os encontrávamos rijos, túrgidos, e até mesmo, se a memória não me falha, tumefactos — mas nunca, nunca por amor de deus se achavam moles, tenros, frouxos, indolentes ou descaídos.
Recordo um capítulo em particular, no qual o protagonista fodia uma groupie platinada com mamas grandes e botas à cowgirl no jacuzzi de uma penthouse com vista para o rio Hudson — se não foi isto, perdoem a liberdade poética. Pouco antes do orgasmo a mulher gritava com arrebatamento:
Ben, tu és o maior!
E ele responde, entre duas bombadinhas:
— Obrigado, Mandy.
E ela retorque, triunfante:
— Eu não sou a Mandy, sou a Sandy. Mas podes chamar-me o que quiseres, desde que continues a foder.
Ao assistir à entrevista de José Sócrates na semana passada compreendi finalmente a natureza da relação entre os portugueses e o primeiro-ministro:
ele pode dizer o que quiser, desde que continue a fodê-los."

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Este filme não existe




Um dos extras do meu dvd de 'Fata Morgana' intitula-se 'Film Notes' e é uma breve explicação do filme ou, pelo menos, uma explicação de alguns dos seus aspectos (por exemplo, que parte dos textos, lidos por Lotte Eisner, são retirados do Popol Vuh) e também das intenções do realizador. Assim, ficamos a saber, que para Herzog este é um filme de ficção científica e que tem lugar "no planeta Uxmal, que é descoberto por criaturas da nebulosa de Andromeda, que fazem uma reportagem fílmica sobre isso". Escusado será dizer que é completamente impossível para o espectador saber isto apenas pela visão do filme. Mesmo a sua classificação como 'ficção científica'...

Vejamos a sinopse do filme que é dada no livro 'Sinais de vida. Werner Herzog e o cinema', de Grazia Paganelli (Edições 70):

O filme está dividido em três capítulos: a Criação, o Paraíso e a Idade do Ouro. Na Criação, o Universo navega numa calma perfeita, existindo só o céu e o mar, e as imagens mostram, em movimentos laterais, dunas e montanhas imponentes, interrompidas por poucos momentos civilizacionais. A voz de Lotte Eisner lê passos do Popul Vuh, o livro da criação dos Quíchuas da Guatemala. No Paraíso aparecem figuras humanas em diversas situações, sobre as quais se detém o olhar do realizador. A voz, entretanto, conta-nos como é a vida nas terras paradisíacas e sugere imagens surreais e hipnóticas. A Idade do Ouro, pelo contrário, é o tempo da completa degradação e a natureza é um conceito já esquecido. Um grupo medíocre toca música num baile, alguns turistas saem de um terreno vulcânico, um homem de fato de mergulho mostra bocados de uma tartaruga.

Note-se que mesmo esta sinopse já exige bastante esforço interpretativo. Acrescentar apenas que a banda sonora vai de Handel e Mozart até Leonard Cohen - That's No Way to Say Goodbye, Suzanne, So Long, Marianne - não meros estratos, mas as canções completas ou quase e totalmente fora de contexto (de certeza que Herzog terá uma explicação para ter usado estas canções e não outras quaisquer mas, uma vez mais, o motivo escapa completamente ao espectador. Para mim, que que sou grande fã de Mr.Cohen, contam-se entre os momentos mais belos do filme).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Só agora vi isto...


Livros da minha vida (I)


Tudo dito

Sábado à noite, um café na terrinha, umas minis na mesa, eu e o meu primo vemos desconsoladamente na TV o Olhanense-Sporting. Chove a cântaros no Algarve, o campo está transformado numa piscina lamacenta. Já o jogo vai numa boa meia hora da segunda parte, quando o meu primo comenta com aquela resignação lacónica típica dos sportinguistas: o equipamento do guarda-redes do Olhanense está imaculadamente limpo...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A esmola discreta

Attar conta que um homem, com reputação de sábio, declarou um dia que desejava dar uma esmola a um pobre, mas de maneira a que ninguém soubesse.
Uma voz disse-lhe então:
- Mas tu, tu saberás sempre.

in Nova Tertúlia de mentirosos. Contos filosóficos do mundo inteiro, Jean-Claude Carrière (Editorial Teorema)

As honrarias

Um velho apresentou-se um dia a um rabi célebre, o rabi Bovnam, e disse-lhe:
- Diz o Talmude que, se um homem foge das honrarias, as honrarias correm atrás dele. Pois bem, toda a minha vida fugi das honrarias e nunca nenhuma me perseguiu.
- É porque estavas sempre a olhar para trás - respondeu-lhe o rabi Bovnam.

in Nova Tertúlia de mentirosos. Contos filosóficos do mundo inteiro, Jean-Claude Carrière (Editorial Teorema)

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

futebóiadas

O Benfica actual faz-me lembrar o FCP dos velhos tempos. Não precisa, não precisa, mas pelo sim pelo não tem sempre ajuda. E quem disse que os árbitros portugueses são burros? Podem ser fraquinhos ( e são), mas sabem muito bem para onde o vento sopra. O Braga não tem hipótese nenhuma de ser campeão.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Antidepressivo #4




Sempre em grande

A propósito do sorteio de qualificação para o Europeu:

'Noruega, Dinamarca, Islândia, Portugal...é o grupo do bacalhau!'

A propósitos de Carlos Queirós andar aos socos:

'Não é só Carlos Queirós que não convive bem com as críticas... Há sinais de haver uma conspiração ao mais alto nível... Este país já chegou à democracia, mas a democracia ainda não chegou a este país.'

Rui Santos, pois claro.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

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A propósito deste post: pelos vistos há mais uma pessoa que acha o mesmo. Valha-nos isso, já me estava a parecer que só eu não conseguia ver o génio da senhora.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

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Votámos num presidente, saiu-nos um cangalheiro.

Os dois alfaiates

Dois modestos alfaiates judeus, num bairro pobre de Londres, trabalham em frente um do outro desde o fim da Segunda Guerra mundial. Cortavam e cosiam incansavelmente, falando de vez em quando disto e daquilo.
Um deles disse ao outro:
- Vais de férias, este ano?
- Não - respondeu o segundo, após um momento de reflexão.
Retomaram o silêncio. Mais tarde, o segundo alfaiate disse de súbito:
- Fui de férias em 1964.
- Foste de férias em 1964? - peguntou o primeiro, muito admirado.
- Fui.
O primeiro alfaiate, que não se lembrava da ausência do seu companheiro, disse-lhe então:
- E onde foste tu nessas férias?
- À Índia.
- À Índia?
- Sim, fui caçar o tigre de Bengala.
- Foste caçar o tigre de Bengala? Tu?
Os dois homens tinham parao de trabalhar e olhavam-se. O segundo alfaiate, que parecia perfeitamente calmo, retomou então a palavra para contar o seguinte:
- Parti de madrugada num elefante magnífico, que um grande príncipe me tinha emprestado. Armado com quatro espingardas com coronhas de prata e acompanhado por toda uma escolta de batedores, aventurei-me na montanha solitária. De súbito, um tigre enorme ergueu-se diante da minha montada a rugir, o maior tigre jamais visto nesta região de Bengala. Espantado, o meu elefante desiquilibrou-se para trás, eu caí nos arbustos espinhosos, o tigre lançou-se sobre mim e devorou-me.
- Devorou-te? - perguntou o primriro alfaiate que tinha estado a ouvir estupefacto.
- Comeu-me todo, até ao último bocado da minha carne.
- Ora, ora, que contas tu? Não te comeu nenhum tigre! Ainda vives!
Então o segundo alfaiate pegou de novo na linha, na agulha e disse ao primeiro:
- Chamas a isto viver?

in Tertúlia de mentirosos. Contos filosóficos do mundo inteiro, Jean-Claude Carrière (Editorial Teorema)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010